quarta-feira, 20 de abril de 2016

O Boneco do Mal

Esqueça o infeliz título em português, que nos remete a qualquer outra coisa que já assistimos em algum momento da vida. Deveriam ter optado pelo simples, apenas traduzindo o título original, afinal, o garoto do filme em questão tem nome, história, fotografias e representatividade na vida daqueles que o cercam. Estar presente em cena como um boneco não é um fator, pelo menos na proposta do filme, para ser visto como tal. Na realidade, os distribuidores brasileiros quiseram aproveitar o trunfo de alguns filmes que fizeram sucesso com seus bonecos diabólicos. Estão aí Annabelle (idem, 2014) e Chuck: O Boneco Assassino (Child's Play, 1998). Não entenderam (ou não quiseram entender) a sutileza e ironia do título em inglês.


O Boneco do Mal (The Boy, 2016) é um filme de terror em seu formato mais cômodo possível, aquele tipo que utiliza os mesmos itens e recursos das várias produções do gênero. Muitas vezes, argumento e roteiros muito elaborados para o gênero fazem com que o rumo se perca, incorrendo naquela triste sensação de que os idealizadores não souberam contar a história. Defendo que, na falta de um processo criativo de mestre (poucos o são) é preferível ir pelo terreno seguro mesmo. Se você não for um gênio de criação cinematográfica, fique no simples, da mesma forma sugerida para o título.

Por outro lado, nesse aspecto de se manter no usual ambiente do terror, é preciso estar ciente de que os clichês do gênero serão inevitáveis. Então, para o público, é necessário dar um desconto e embarcar na proposta, ao passo que, para os produtores, é esperado algum tipo de melhor do mesmo. Ou seja, trabalhar com o clichê não significa que os elementos deverão ser revisitados sem algum tipo de inovação. Trabalhe o ângulo, trabalhe o momento, trabalhe o ator, inverta a ordem. Recontar o conhecido de forma ímpar também é muito bem-vindo.

Veja se não parece com o conteúdo de qualquer coisa que já vimos: garota bonita sozinha e vulnerável, mansão isolada no meio de uma floresta, carros que não dão partida de início, barulhos estranhos, sonhos assustadores, acordes altos... Por aí vai! O importante é cuidar para que não fique burocrático (no sentido negativo do termo) e simplesmente jogado na cara do espectador.

Greta, uma bela garota norte-americana (Lauren Cohan, a Maggie de The Walking Dead), tentando esquecer os tormentos de um namoro sofrível, aceita um trabalho de babysitter numa mansão em lugar remoto da Inglaterra. No local, ela é recebida por um casal de meia-idade e termina por descobrir que havia sido contratada para cuidar de um boneco. Aí que entra a questão de dar esse nome ao título. Apesar de a criança ser realmente um boneco, sua existência era encarada como a de um garoto normal, com direito a rotinas próprias de um ser humano. E, o mais importante, ele tinha um histórico de vida: registros fotográficos (de quando existia), nome, certidão de nascimento...



Logicamente, a princípio, a mocinha acha a situação risível, mas como ela estava recebendo um bom dinheiro para aquele ofício e pretendia realmente manter distância do namorado complicado, resolveu entrar no jogo e tratar Brahams (o nome do garoto representado pelo boneco) como uma criança.

O casal, então, decide sair numa esperada viagem de férias (para isso eles haviam contratado Greta), deixando a babá completamente sozinha (e isolada) na mansão com o garoto.

A partir daí, não é difícil imaginar que Greta começaria a ouvir vozes, receber telefonemas, ter objetos desaparecidos, terminando, por fim, a entrar em pânico. É realmente necessário compreender a natureza tola das mocinhas de filmes de terror, senão fica impossível embarcar na história. O roteiro chega a ser bem patético em certos momentos. Ninguém tem pertences tirados de um local, ainda mais quando se está sozinho em casa, e sai em busca, adentrando aquele batido lugar escuro e sinistro, e o pior, apenas de toalha!

Relevem!



O bom do filme é que ele não invocou os velhos feitiços e maldições tão recorrentes nos filmes de terror atuais, indo por um caminho que, sem tanto alarde, ao menos foi sincero e acertado.

Longe de ser um filmão, O Boneco do Mal ao menos serve para uma boa sessão de filme de terror. sem muitas pretensões. Vale ver na TV, em VOD ou streaming.

Concluindo a ópera, eu gostei.



Corrente do Mal

Corrente do Mal (It Follows, 2014) é mais um filme de terror com adolescentes que se assustam, que gritam, que correm, que transam... Porém, a direção optou por um caminho que afastou o longa do desagradável mais do mesmo tão comum nos filmes de terror da atualidade.


Com elenco sem muitos atrativos e figuras adultas quase inexistentes, o filme traz o dilema de uma bela jovem que, após transar com um paquera, passa a sofrer com visões perturbadoras que a fazem sentir-se num perigo iminente diante das estranhas figuras que ela tem visto mesmo acordada.

Em virtude do contato sexual, ela havia recebido uma maldição que a faria ver seres estranhos, podendo estes aparecerem com diversas formas e em lugares inesperados. E o que eles queriam? Matar! E como ela ficou sabendo disso? O rapaz que transou com ela contou que se tratava de uma maldição transmitida durante o contato sexual. E por que ele fez isso? A carne é fraca...


E o rapaz não era bem um vilão... Ele também havia recebido a maldição ao transar com uma garota. Como ele sabia que, com algum cuidado e vigilância, a pessoa poderia se safar, terminou por escolher uma bela jovem para fazer o que ele estava precisando a algum tempo. Escolheu a bonitinha protagonista do filme e se dignou a contar para ela o que fazer e como fugir: "Fique sempre em lugares onde você possa fugir com facilidade e observe sempre que algum estranho se aproximar". Mais gentil e camarada impossível. E ele ainda deixa a moça de sutiã e calcinha na porta de sua casa. 

Fugindo dos contumazes clichês do gênero, em que acordes altos e imagens grotescas significam trunfos para aterrorizar a plateia, este filme procura instaurar o medo por meio da tensão crescente e de situações muito mais sugeridas do que mostradas.

A aproximação dos algozes nunca é jogado de uma hora para outra na cara do espectador. Muito pelo contrário! Muitas vezes estamos mais atentos que os próprios personagens e tememos por algo que já está sendo mostrado, mas que os preocupados e ingênuos protagonistas nem sempre percebem.


Outro fato interessante é a proposital atemporalidade do longa. Não é possível identificar a época da história. O trabalho da direção de fotografia imprime um visual sóbrio para a produção, ao passo que os figurinos elegantes e sem modismo não permitem que os estilos fiquem datados. Embora, alguns gadgets, de certa forma, nos remetam à atualidade, eles têm seus efeitos atenuados (ou anulados) ao serem mostrados juntamente com TVs de tubo e outros itens já ultrapassados. E outra: onde estão os celulares? Não vi.

Uma cena em específico consegue assustar, sendo uma das poucas que acontecem de forma rápida. E isto acontece exatamente porque o filme prepara o público a não esperar por aquelas imagens tenebrosas que finalizam as cenas com som estrondoso. Por outro lado, algumas sequências não funcionam e comprometem a legitimidade das figuras fantasmagóricas, com a situação em que os jovens se encontram na piscina. Ficou meio palhaça (na falta de outra palavra).


Está longe de ser um referencial de filme de terror, no entanto, A Corrente do Mal entra nas exceções do gênero ao arriscar perder uma fatia dos adeptos desmiolados ao imprimir um medo pelo caminho da dúvida e da apreensão gradativa.




domingo, 18 de janeiro de 2015

O Abutre (Nightcrawler, 2014)



Poucas vezes temos a oportunidade de ver protagonistas tão amorais e tão sem escrúpulos no cinema, e o pior, terminar por gostar deles. O aparentemente ingênuo Louis Bloom nos dá uma lição de como pegar uma ideia de forma oportunista, desenvolvê-la com coragem e se tornar uma referência no produto, sem pudor algum, sem regras morais, sem piedade...

Logo na primeira cena, percebemos que Louis é um homem estranho e deslocado no mundo. Apesar de parecer um sujeito abobalhado, ele nos surpreende ao atacar um vigilante desavisado para tão somente roubar o relógio bacana do sujeito. Depois disso, é revelado que ele pode ir além, tendo a capacidade de enfrentar e coagir pessoas espertas por meio de sua desenvoltura com as palavras e de sua capacidade de observar os pontos fracos dos outros de forma sutil e ardilosa.

Por fim, essa impressão vai por água abaixo quando temos a certeza de que o personagem é um canalha bem articulado.



Em O Abutre (Nightcrawler, 2014), o ótimo Jake Gyllenhaal compõe mais um personagem brilhante para sua galeria de tipos fora do comum. Assim como em Donnie Darko (2001), o ator tomou o cuidado de manter seus olhos sempre bem abertos, sem piscar, sem desviar a visão de seu foco, tudo para potencializar o modo soturno da caracterização. Complementando a composição, por conta própria, Gyllenhaal decidiu emagrecer 10 quilos e usar um cabelo do tipo corte-me, por favor.

No primeiro ato do longa, mesmo sob o impacto da primeira cena, persiste a ideia de que estamos diante de um ladrão medíocre que quer um emprego e construir um nome, mas que ainda não se deu bem por não estar no lugar certo, na hora certa, para a sacada de sua vida. Não obstante a consciência de que poderia parecer patético, ele não se constrange ao pedir um emprego para o dono da empresa de fachada que compra seus itens roubados. Quem vai dar um trabalho a um um ladrão pé-de-chinelo confesso? Ele parece mesmo um estúpido...

Louis Bloom aprendeu grande parte de seu discurso impecável em pesquisas na internet, o que seria algo até plausível para um homem deslocado, desde que ele fizesse uso disso somente naquelas conversas introdutórias e superficiais. O problema é que ele tem a capacidade de manter essa mesma tática memorizada ao longo de uma relação, revelando, assim, seu lado sociopata. Psicótico, Bloom é um autodidata que planeja suas falas e que arma o declínio de seus opositores sem se preocupar com a gravidade do resultado. Um perigo!



Dirigindo noite adentro, Louis se depara com um grave acidente de carro e observa algumas equipes independentes que gravam aqueles momentos funestos para vender às emissoras de TV.  É aí que surge a ideia de comprar uma câmera (também trocando material de roubo), usar um rádio receptor e captar os alertas policiais para chegar antes aos locais dos desastres e dos assassinatos.


Meio descontrolado a princípio, ele arruma encrenca com pessoas próximas às vítimas, com policiais que estranham seu jeitão atabalhoado e com profissionais mais bem preparados (como o interessante personagem de Bill Paxton), que querem afastar aquele "abutre" amador das cenas de sangue e conflito.

E é num desses momentos de empurrões e desentendimentos que ele consegue capturar com mais precisão o resgate de um grave acidentado. Na espreita, ele procura saber a quem levar aquele tipo de filmagem, dirigindo-se, então, a uma emissora que estava no jogo do quanto mais chocante melhor. Logo no primeiro contato, ele conhece a diretora de um programa que procurava mostrar matérias sensacionalistas, vestindo um véu de jornalismo investigativo e de prestação de serviços sociais. Aquele mundo cão da TV...


Com esse material grotesco, ele consegue a atenção da diretora de TV Nina Romina (brilhantemente interpretada pela sempre bela Rene Russo), entrando num esquema de atração e disputa. Ela querendo cenas cada vez mais impactantes, ele querendo cada vez mais estrutura e apoio para crescer naquele ramo. Um alimentando o outro, um querendo devorar o outro. Nessa, os dois se dão bem. Porém, é exatamente nesse jogo que Nina descobre estar nas mãos do bobão. O longo discurso em que Gyllenhall, sem receio algum, propõe (exige!) um romance porque aquilo seria uma extensão de seu negócio, é de deixar qualquer um admirado com seu domínio de texto e gestos. Contudo, falta de escrúpulo por falta de escrúpulo, a proposta imoral, apesar de audaz e desrespeitosa, termina por não ser bem um risco para ela. Seria um vantajoso jogo de interesses, um romance entre picaretas (que merecia algumas cenas mais intensas, penso), uma armação de gato e rato.


O filme traz um debate interessante sobre o que o público, mesmo que inconscientemente, busca no jornalismo da TV. Existe, sim, uma grande parte de expectadores que tem um gosto maior pelos crimes e acidentes locais, deixando de lado as reportagens de abrangências nacionais e internacionais. Isso acontece muito no Brasil também.

Depois de tanta ousadia e de tantas demonstrações de mau-caratismo, terminamos por simpatizar (e até por torcer) pelo personagem de Gyllenhaal, pois sabemos que um tipo como aquele, depois de uma jogada tão bem articulada,  merece se sair bem (lógico que na ficção).

Uma pena não ter havido sequer uma indicação ao Oscar...

Recomendo sem ressalvas!







Efeitos Visuais de Capitão América: O Soldado Invernal

Cada vez mais impressionante o que os recurso da computação gráfica têm feito nos filmes de ação.






sábado, 13 de dezembro de 2014

As Expressões Faciais

De ondem vieram as divertidas expressões faciais de famosos personagens de desenhos animados? Tom & Jerry (Hanna-Barbera), Pernalonga (Warner Bros.) e personagens da Disney receberam seus olhares cínicos e risos debochados da própria face dos criativos desenhistas da era de ouro dessas animações. Abaixo, seguem alguns registros muito interessantes desse tipo de trabalho.  















segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Mais uma de Os Simpsons

Desta vez, os produtores do icônico seriado Os Simpsons decidiram fazer uso da liberdade criativa já conhecida pelos espectadores da série e alteraram os estilos do desenho por outros de famosas séries de animação. 

No clipe de episódio de Halloween, somos brindados com diferentes contornos nos desenhos que fazem referências às bem-sucedidas animações Naruto, Pokémon, One Piece, South Park, entre outros.






sábado, 18 de outubro de 2014

Terror em Massinha

A artista Lizzie Campbell elaborou um interessante trabalho com massinhas para compor cartazes de filmes de terror com graça e criatividade. 













Mais?





sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Proxy

Após uma tranquila cena, em que a personagem principal do filme faz seu último pré-natal, somos surpreendidos com uma sequência elaborada exatamente para chocar. A mesma jovem, grávida de 9 meses, é atacada, arrastada para um beco e termina por levar fortes tijoladas na barriga. Logicamente, o indivíduo encapuzado queria matar a garota e o seu bebê. Ou queria somente matar a criança e manter a moça viva, com a cruel intenção de destruir sua felicidade?

Não se assustem! As cenas relatadas acima fazem parte do trailer e da sinopse original do longa, não se configurando um spoiler. O filme em questão tem reviravoltas e revelações de impacto. Muitas de arrepiar!


A tragédia pode levar o ser humano a um processo de declínio ou pode criar uma oportunidade para construção de uma vida melhor. Agora, quando alguém passa por uma situação funesta e vai pelos dois caminhos, é sinal de que há algo errado na história.

Existem muitos centros de apoio que auxiliam pessoas desoladas e socialmente sem rumo, não se importando com  a mensuração do dano ou em fazer uma escala de valores de transtornos, Assim, podemos encontrar, nesses lugares, pessoas com problemas legítimos e pessoas com questões pouco significativas a serem tratadas, mas que também merecem algum tipo de acalento. Afinal, quem pode definir qual sofrimento é maior e pode estar colocando a vítima no limite do desespero? E quem não tem problema algum pode procurar esses lugares?  Pode, não é?

É num ambiente como esse que as duas figuras principais de Proxy (idem, 2013) se conhecem. Embora uma pareça mais conformada e resolvida do que a outra, nenhuma delas tinha ideia do quanto seria danoso remexer em um terreno desconhecido. E é exatamente o avanço de uma barreira que traz à tona as verdadeiras faces de duas mulheres.

Na realidade, nenhuma delas estava lá por motivos legítimos, ou seja, buscando realmente atenuar algum trauma sofrido, uma vez que uma não só foi por insistência do hospital que a socorreu e a outra não queria de fato resolver seu problema.






Uma delas é Esther (a genial Alexa Rasmussen), uma jovem grávida que, após seu último pré-natal, é brutalmente atacada num beco e perde sua criança. As cenas são fortes! A outra é Melanie, interpretada por Alexa Havins, uma jovem viúva que procura o centro para aceitar a perda de seu filho e de seu marido num acidente de carro.

Grande destaque no Festival Internacional de Cinema de Toronto - Edição de 2013, Proxy sai da linha de drama comum e surpreende com uma narrativa contundente, capaz de prender a atenção até o choque final do última cena do filme. 

Por causa de algumas imagens divulgadas na internet, principalmente aquelas em que a jovem grávida é atacada, o filme tem sido buscado erroneamente por apreciadores de filmes de terror, fazendo com que muita gente quebre a cara e condene a produção, uma vez que não se trata de um exemplar do gênero. 

trailer oficial é muito bem sacado e não se caracteriza, de forma alguma, como aqueles filmes que capricham na seleção de cenas somente para enganar o público com um teaser bem montado. O filme é melhor que o trailer, ok? Não venham me responder: claro que é. Eu já assisti a muitos teasers superiores à produção na íntegra.


As atrizes centrais não brincam em serviço e nos apresentam composições convincentes das personagens tridimensionais que elas interpretam, conseguindo solidificar as mudanças de suas personalidades com afinco  à medida que a produção avança. O outro destaque feminino fica por conta da interpretação furiosa de Kristina Klebe, que não tem sua performance comprometida por entrar em cena somente após várias cenas do primeiro ato do longa. A condução vigorosa que a atriz dá à sua personagem, uma lésbica bem masculina, voraz e violenta, nos faz acreditar que ela realmente irá comprometer o rumo do filme.

Com um final surpresa digno de uma ideia original bem construída, o longa nos faz questionar sobre as aparências e os segredos guardados por pessoas parecidas com muitas que estão próximas da gente. A cena final é arrebatadora e pode deixar muito espectador sem ação por alguns segundos.